A “grande entrevista” do dr. Ulisses

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A peça é longa e ocupou, como é da praxe, várias páginas do jornal A Semana e, nela, o dr. Ulisses, seguindo, aliás, o manual corrente do “politicamente correcto”, desfilou as suas principais ideias e promessas para o país.
Nenhum sector da governação ficou de fora.
Entre as vozes e as nozes, ficámos a saber, em boa medida, o que pretende o chefe do MpD.
Ulisses Correia e Silva fez um trabalho meritório na Câmara Municipal e tem fama de burocrata exemplar, cumpridor. A cidade da Praia está hoje melhor organizada, é um facto.
Actividades como o “Kriol Jazz Festival” deram um ar mais cosmopolita ao burgo, inserindo-o no cartaz turístico internacional. Aplausos, aplausos.
Correia e Silva não é propriamente um bom comunicador e tem mesmo algumas dificuldades no plano retórico-argumentativo. Este é, claramente, um dos seus problemas enquanto líder político.
Fez um caminho e muitos progressos, mas ainda está longe daquele fastígio simbólico e discursivo, calcado em sólidos conhecimentos das humanidades (que os medievos chamavam simplesmente de “Artes Liberais”), que sempre ornamentou a divisa dos grandes estadistas ao longo da história, de Tucídides a Winston Churchill.
Na referida entrevista, cuja leitura se aconselha, há realmente coisas boas.
E outras menos boas. É de inteira justiça elencar umas e outras. Sem tardança e com espírito de imparcialidade.
Cabo Verde precisa, sim, de reverter o ciclo das políticas “rentistas”, que só aumentam a dependência e criam laços perversos do ponto de vista da cidadania, minando, é claro, o espírito cívico e aquilo que os anglo-saxónicos chamam, significativamente, de “capital social”, tão bem analisado, entre muitos outros, por Robert Putnam, a propósito dos hábitos arcaicos de uma certa Itália.
Ao longo de vários anos, em textos fundamentados que marcaram uma época, este vosso criado denunciou, alto e bom som, semelhantes práticas.
Lembrar não ofende, minha gente.
Um outro nome que é necessário recordar – correndo embora o risco de desagradar certos deuses de esquina! – é o do engenheiro Humberto Cardoso, com as suas análises acutilantes e bem informadas da conjuntura nacional e do panorama internacional, inclusive. (Um dia, quem sabe, Ulisses Correia há-de explicar a dimensão da intriga palaciana que ditou o afastamento de HC do futuro Parlamento, num momento em que o país tanto precisa de cabeças pensantes, treinadas nas discussões políticas complexas e de longo alcance).
É necessário melhorar a posição de Cabo Verde no Índice da Competitividade e no “doing business”. É difícil não concordar com o dr. Ulisses neste aspecto concreto.
Há um apelo vago no sentido da “mudança de atitude”, que muitas vezes é mal explicada pelos “financistas” e homens fortes do MpD.
“Libertar” as ilhas e as regiões. Fortalecer as autarquias locais. Construir uma Administração Pública competente. Aproveitar a “posição geoestratégica” do país. Apostar na requalificação urbana, etc., etc.. Porque não?
São objectivos correctos, simpáticos, positivos. Nada a opor.
Assim como reduzir a burocracia e a carga fiscal sobre as famílias e as empresas. Nenhum país do mundo progrediu com um Estado agressivo e monopolizador. Nenhum.
A prioridade do MpD, percebe-se, é o crescimento económico e a criação do emprego.
Há mesmo uma passagem bonita em que UCS, adoptando o credo ideológico de Adam Smith, diz algo significativo, que merece o devido destaque: “Vamos estimular e incentivar as nossas empresas, porque elas é que são as principais criadoras de riqueza e de emprego” (sic).
A frase é quase perfeita, do ponto de vista político. Um único reparo: não basta estimular apenas “as nossas” empresas, mas TODAS elas, incluindo, sem dúvida, aquelas que possam vir do estrangeiro e trazer prosperidade ao povo cabo-verdiano.
O que falta então? Muita coisa. Ulisses propõe, por vezes, políticas contraditórias.
As ideias são confusas, nalguns casos específicos. A vacuidade impera, onde não devia.
Clareza estratégica nunca fez mal a ninguém.
UCS quer menos Estado, como se pode perceber durante a longa entrevista e no seu impropriamente chamado “programa de Governo (quando não passa, na verdade, de uma simples plataforma eleitoral, por mais méritos que tenha), mas entretanto insiste em medidas populistas como o “salário mínimo”, etc., que aumentam o grau de intervenção estatal na economia e, até, o desemprego (veja-se, sobre esta matéria, Milton Friedman e, mais recentemente, a análise percuciente de Thomas Sowell).
Parece não perceber, também, o desafio urgente e inadiável da cultura política. Ontem Marx, hoje A. Comte!
As propostas técnicas e políticas, pronto-a-vestir, são desenhadas por uma burocracia supostamente iluminada, concentrada unicamente (ou basicamente, rectius) nos aspectos económicos.
No sector da Justiça, decisivo em qualquer República, nunca se toca no essencial.
O MpD deixou aliás, e estranhamente, de fazer o verdadeiro combate político, permitindo, tal como queria Antonio Gramsci, que o seu adversário tome conta, quase por inteiro, dos símbolos e das instituições de cultura e de formação da opinião.
As evidências são esmagadoras. Os custos, esses, podem ser desastrosos, a médio e longo prazos.
Há que ter, por fim, algum cuidado com certas “propostas”, amplificadas pelos sectores de propaganda do partido.
Crescer a 7% na actual conjuntura internacional não é tarefa fácil.
Há que haver alguma contenção, meus senhores.
Porque é que Ulisses, sempre afoito, não lê os avisos de reputados economistas internacionais, desses, por ex., que Humberto Cardoso cita, com frequência, nos seus sensatos editoriais? O voluntarismo costuma ser um mau conselheiro.
Há dias, li uma coisa preocupante.
UCS, dizem por aí certos moços de recado, propõe “criar” 45 mil postos de trabalho. Não me lembro em quanto tempo. É uma gaffe imperdoável.
Ora, não estamos na ex-União Soviética nem sequer em Cuba, onde há “planos quinquenais”, Colberts de toda a espécie e estruturas centralizadas de decisão económica.
O Governo, numa economia liberal, não cria empregos.
Constrói apenas um ambiente favorável ao crescimento e ao desenvolvimento humano, mas sempre de forma supletiva e subsidiária.
Ou já não será assim?

Author: Diario CV

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